É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança
- Marilia Queiroz
- 22 de jun.
- 5 min de leitura
Você por algum acaso já ouviu falar no provérbio africano: "É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança"?
Eu sempre gostei dessa frase, mas confesso que ela passou a fazer ainda mais sentido conforme fui atendendo crianças ao longo dos anos.
Hoje, quando escuto pais dizendo que se sentem sobrecarregados, culpados ou com a sensação de que precisam dar conta de tudo sozinhos, lembro imediatamente dela. Talvez porque, em algum momento, tenhamos começado a acreditar que uma criança precisa encontrar tudo em seus pais: segurança, acolhimento, escuta, orientação, companhia, validação emocional e referências para construir sua identidade. É uma expectativa enorme para os pais e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade grande demais para apenas duas pessoas.
Quando penso na minha própria infância, lembro de pessoas que não eram meus pais, mas que tiveram um papel importante na minha história. Talvez você também consiga pensar em alguém. Uma avó que contava histórias, um tio que parecia sempre ter tempo para brincar, uma prima mais velha que servia de inspiração ou até uma professora que acreditou em você em um momento importante. São pessoas que, muitas vezes sem perceber, ajudaram a construir quem nos tornamos.
Isso não acontece por acaso. Françoise Dolto defendia que a criança se constitui na relação com o outro. Em outras palavras, nossa identidade não surge pronta nem se desenvolve apenas dentro da família nuclear. Nós nos construímos através dos encontros que vivemos, dos vínculos que estabelecemos e dos diferentes lugares que ocupamos nas relações. Os pais têm um papel central nesse processo, mas não são os únicos personagens dessa história.
É justamente por isso que os vínculos com avós, tios, primos, padrinhos, professores e outros adultos significativos podem exercer uma influência tão importante no desenvolvimento emocional. Com os primos, a criança aprende a negociar regras que não foram criadas por ela, a lidar com conflitos e a perceber que seus desejos nem sempre serão atendidos imediatamente. Com os avós, frequentemente entra em contato com sua história familiar e desenvolve um sentimento de pertencimento que ultrapassa sua experiência individual. Com os tios e outros adultos de confiança, descobre diferentes formas de pensar, viver e interpretar o mundo. Cada relação amplia seu repertório emocional e social.
Essa percepção encontra respaldo em décadas de pesquisa sobre desenvolvimento humano. O psicólogo Urie Bronfenbrenner demonstrou que o desenvolvimento infantil acontece dentro de uma complexa rede de relações. Embora a família seja um dos contextos mais importantes, ela não atua isoladamente. A escola, a comunidade, os amigos, os familiares e outros ambientes de convivência participam ativamente da construção emocional e psicológica da criança.
Os estudos longitudinais conduzidos por Emmy Werner ajudam a compreender ainda melhor essa questão. Ao acompanhar centenas de crianças desde o nascimento até a vida adulta, a pesquisadora observou que muitas delas conseguiram se desenvolver de forma saudável apesar de terem crescido em condições bastante adversas. Um dos fatores de proteção mais consistentes encontrados foi a presença de pelo menos um adulto significativo que oferecesse apoio emocional, encorajamento e uma relação estável de confiança. Nem sempre essa figura era um dos pais. Muitas vezes tratava-se de uma avó, um professor, um tio ou outro adulto que ocupava um lugar importante na vida daquela criança.
Anos mais tarde, Ann Masten descreveu esse fenômeno como uma espécie de "mágica comum". Segundo suas pesquisas, a resiliência não costuma surgir de fatores extraordinários, mas de processos cotidianos de cuidado, pertencimento e vínculo. Em outras palavras, crianças não precisam necessariamente de condições perfeitas para se desenvolver bem. Elas precisam, sobretudo, de relações humanas consistentes e emocionalmente disponíveis.
Foi nessa mesma direção que Boris Cyrulnik desenvolveu o conceito de "tutores de resiliência". Para ele, algumas pessoas funcionam como verdadeiros pontos de apoio emocional ao longo da vida. São figuras que ajudam a criança a atribuir significado às experiências difíceis, fortalecem sua percepção de valor pessoal e oferecem uma base segura a partir da qual ela pode continuar se desenvolvendo. Esses tutores podem ser familiares, professores, amigos, cuidadores ou qualquer adulto que ofereça uma relação de confiança e suporte.
Na clínica, às vezes observo algo que me faz refletir. Muitas crianças constroem vínculos profundos com pessoas que fazem parte do seu cotidiano e que, aos olhos dos adultos, podem parecer secundárias. A babá que acompanha os primeiros anos de vida, a professora que esteve presente em momentos importantes do desenvolvimento, um avô que participa ativamente da rotina ou até mesmo um funcionário da casa que se tornou uma referência afetiva. Para a criança, essas relações raramente são secundárias.
Talvez seja justamente por isso que valha a pena refletirmos sobre o impacto de algumas mudanças que, para os adultos, podem parecer simples. O que acontece quando uma criança muda constantemente de escola? Quando troca repetidamente de cidade ou de país? Quando pessoas que cuidaram dela por anos desaparecem da sua rotina sem que exista tempo para elaborar essa despedida? O que acontece quando professores, cuidadores ou funcionários da casa que ocupavam um lugar afetivo importante deixam de fazer parte da sua vida de maneira abrupta?
É claro que mudanças fazem parte da vida e nem sempre podem ser evitadas. Mas, para uma criança, elas representam muito mais do que uma alteração de endereço ou de rotina. Frequentemente representam a perda de referências afetivas que ajudavam a sustentar sua sensação de continuidade, previsibilidade e segurança.
Quando pensamos no desenvolvimento infantil, costumamos nos preocupar com a qualidade da escola, das atividades oferecidas ou dos estímulos que a criança recebe. Tudo isso é importante. Mas talvez devêssemos nos perguntar também: quem são as pessoas que conhecem essa criança de verdade? Quem acompanha sua história? Quem permanecerá presente tempo suficiente para se tornar parte dela?
Porque uma criança que cresce cercada por pessoas que a conhecem, se interessam genuinamente por ela e ocupam um lugar afetivo em sua vida aprende algo muito importante: ela aprende que não está sozinha. E talvez uma parte significativa da segurança emocional nasça justamente dessa experiência de pertencimento.
Talvez seja por isso que esse provérbio africano tenha atravessado gerações e continue tão atual. Ele nos lembra que criar uma criança nunca foi uma tarefa solitária. Os pais são fundamentais, mas nenhuma criança deveria precisar encontrar tudo em apenas duas pessoas.
No final das contas, toda criança merece ter a sua aldeia.

Referências
Bronfenbrenner, U. (1979). The Ecology of Human Development. Harvard University Press.
Werner, E. E., & Smith, R. S. (1992). Overcoming the Odds: High Risk Children from Birth to Adulthood. Cornell University Press.
Masten, A. S. (2001). Ordinary Magic: Resilience Processes in Development. American Psychologist, 56(3), 227-238.
Cyrulnik, B. (2009). Autobiografia de um Espantalho: Histórias de Resiliência. Martins Fontes.
Dolto, F. (1984). A Imagem Inconsciente do Corpo. Perspectiva.



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